Muito se fala sobre imigração, emigração neste país, mas há um tipo de migração que passa despercebida, a migração de cidade dentro do próprio país. Não lhe vou chamar de êxodo rural porque sempre morei a 30min/45min da cidade do Porto. Mas a mudança conseguiu ser complicada ao primeiro.
Foi meio país, mudei-me do Porto para Lisboa. Ao mesmo tempo que tinha uma alegria por ter entrado na Universidade, as saudades bateram de forma automática também. Estava numa cidade que não conhecia, rodeado de gente que não conhecia (ainda), onde tudo poderia acontecer. Na primeira noite pedi um chá na casa onde fiquei, as emoções todas em conjunta fizeram com que eu tivesse uma dor de barriga, hoje sabia bem o que estava a acontecer, na altura, nem por isso.
No primeiro dia de aulas, não sabia onde ficava a sala, perguntei a umas de multimédia, olharam para mim como se tivesse uma segunda cabeça e não me disseram nada. Foi o segurança que me indicou o caminho, um senhor nos seus 50 e tais. Fiquei com uma impressão fraca do povo de Lisboa, donde vinha toda a gente se ajudava sem pedir nada, dava indicações com um sorriso, ajudavam-se. A cena em si marcou, mas lá fui eu para a sala.
Conheci os professores e ainda nem sabia que passado um ano, estaria numa sala a discutir com todos eles, a defender algo importante: o conforto para o aprendizado. Sentei-me ao lado do Tiago e conservamos ligeiramente. Ele ficou só aquela semana, depois largou o curso. Estranhamente, ainda me lembro das caras de todos naquela sala, mesmo que mais de metade tenha desaparecido no primeiro mês de aulas. Quando terminou aquela reunião, se lhe posso chamar assim, fomos em turma para um pátio conversar. Quando falei pela primeira vez, apontaram-me logo o dedo e perguntaram se eu era do Norte, respondi que sim. Era o único nortenho naquele sítio. Mesmo quando todos me conheciam, numa aula do segundo ano fui usado como exemplo, pelo meu sotaque num debate a meio duma aula.

Às vezes cogitava ficar calado, até porque passei dias, meses e anos de pessoas a dizerem que não entendiam o que eu dizia. Ainda penso nisso, falo português, mas ali estava eu rodeado de pessoas que me usaram como exemplo de alguém com dificuldades de adaptação por causa da língua. Não respondi na hora pelo choque, mas tinha ficado chateado. Talvez tenha sido pelo melhor, comecei a borbulhar de raiva e não queria faltar ao respeito à professora ao interromper o meu colega e começar uma discussão. Mas essa ideia de ser alguém que falava diferente, assentou na minha cabeça como uma pedra. Uma que ainda não saiu de lá e provavelmente não sairá.
A coragem de alguém que escolhe sair do que conhece para o desconhecido tem muito que se diga. Desafios que ninguém nos prepara e acontecimentos que marcam, podem até virar uma marca permanente. Mudei-me para uma distância de 300kms e foi o suficiente para me marcar e ficar a saber que os valores que nos são ensinados, quer pelos meus pais e pela comunidade, podem não ser suficientes e que podem ser completamente diferentes, o que basta, é atravessar meio país.
